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Teatro
Nardja Zulpério

1990. Texto e direção de Hamilton Vaz Pereira O brilho de uma atriz talentosa Sonia Biondo – Revista Veja – 01/1991 Em Nardja Zulpério, Regina Casé pisa o palco sozinha numa corrida maluca e faz o público rolar de rir Não é só a paisagem que se recupera no Rio de Janeiro. Com a estréia de […]

Postado 30/06/2015 às 02h06 Atualizado em 20/08/2015 às 14h08

1990. Texto e direção de Hamilton Vaz Pereira

O brilho de uma atriz talentosa

Sonia Biondo – Revista Veja – 01/1991

Em Nardja Zulpério, Regina Casé pisa o palco sozinha numa corrida maluca e faz o público rolar de rir

Não é só a paisagem que se recupera no Rio de Janeiro. Com a estréia de Nardja Zulpério – monólogo escrito por Hamilton Vaz Pereira e estrelado pela atriz Regina Casé -, o humor, uma das marcas registradas da cidade, volta a viver seus melhores momentos no cenário teatral. Desde a revelação, em meados da década de 70, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone e de alguns raros espetáculos do gênero besteirol, não se via nos palcos cariocas algo que unisse qualidade com humor em quantidades generosas. O público ri e sofre com as aflições de Nardja e, principalmente, estabelece um pacto de cumplicidade com Regina Casé, que sai desse primeiro trabalho solo consolidada como a melhor humorista brasileira.

A estrutura de Nardja Zulpério não é simples e a peça poderia resultar numa confusão monumental não fosse Regina a atriz. Identificada com o universo de Hamilton – foi casada com ele e os dois trabalharam juntos no Asdrúbal -, ela traduz o autor para o público, interpretando duas personagens hilariantes. Uma delas é Nardja, uma atriz comprometida com vários trabalhos profissionais ao mesmo tempo e que se especializou tanto em mitologia grega quanto no filósofo alemão Nietzsche. A outra é Psiquê, a mulher de Eros na mitologia grega, que a atriz Nardja interpreta num teste para um comercial de televisão.

A peça começa com Nardja – esse nome estapafúdio, segundo Hamilton, é decorrente de um capricho dos pais da personagem, uma camareira e um fotógrafo lambe-lambe – chegando em casa depois de um dia especialmente duro. O espectador acompanha a noite e a madrugada da atriz antes de retornar o batente. Nesse intervalo que deveria ser dedicado ao descanso, Nardja responde aos recados da secretária eletrônica, resolve problemas práticos da casa e prepara os trabalhos prometidos para o dia seguinte. A lista de tarefas poderia constar da agenda de todos os personagens da antiga TV Pirata ao mesmo tempo: escrever a letra para uma música do ex-marido, que mora em Los Angeles e terá sua grande chance como cantor naquele dia, preparar uma participacão especial numa peça em Belo Horizonte, ensaiar para um teste para o comercial no qual concorre ao papel de Psiquê e fazer uma adaptação para o teatro da obra de Nietzsche Assim Falou Zaratustra.

INVEJA DE AFRODITE – Cumprir essa corrida maluca após um dia de trabalho é, sem dúvida nenhuma, dose para leão – e assistir a um monólogo no qual alguém passa o tempo todo às voltas com tal maratona poderia resultar numa verdadeira tortura teatral. Ocorre o oposto. Regina tem muitos momentos brilhantes, como na cena em que conta didaticamente para a platéia o mito de Psiquê. Começa falando sobre a beleza da mortal que provocou a inveja de Afrodite. Para ser mais explícita em relação aos seus dotes físicos, ela resolve “fazer cara de bonita” e ainda ensina às pessoas como imitá-la. O resultado é impagável.

O melhor de sua interpretação, contudo, vai além do histrionismo de caras e bocas. A maneira de uma personagem de Pirandello, Nardja conversa com o público e faz críticas até ao texto que interpreta. Lembrando que a crítica paulista – a peça esteve em cartaz em São Paulo, numa pequena casa noturna – chegou a apontar partes da peça que deveriam ser suprimidas, ela avisa a certa altura: “Sabe qual é o pedaço que a crítica achou pior? É exatamente esse a que vocês vão assistir agora”. Para aumentar a confusão, Regina convoca a platéia para um debate em que se decidirá se o tal trecho deve ser cortado ou não – e leva pelo menos uns dez minutos divertindo o público com a proposta.

Através de monitores de vídeo, ela ainda contracena com coadjuvantes especiais, como Fernanda Montenegro, no papel de Afrodite, e Luís Fernando Guimarães, como o ex-marido Felipe. Regina atribui o resultado bem-sucedido ao fato de ter um texto capaz de amarrar suas estripulias no palco. “Jamais poderia fazer um show de humor desses na base da pura improvisação. Seria um fracasso”, diz. O contrário também é verdadeiro – ou seja, o texto não existiria sem ela. O sucesso de Nardja Zulpério se alicerça numa virtude que, na era dos efeitos cênicos mirabolantes, andava meio sumida dos palcos: o brilho de uma atriz talentosa.

Sucesso no Rio – Nardja Zulpério

Sucesso absoluto no Rio de Janeiro, onde foi vista por 200 mil pessoas desde janeiro de 1991, a peça Nardja Zulpério, com Regina Casé, estará em excursão nacional de outubro próximo a fevereiro de 1993.

A peça foi escrita por Hamilton Vaz Pereira especialmente para Regina Casé, que demonstra, no palco, as qualidades de comediante que a tornaram famosa na televisão. É um monólogo bem no estilo dela: Regina contracena com gravadores, telões, secretária-eletrônica, toca-discos e com a platéia.

São uma hora e meia contínuas de risos, conforme testemunham seus admiradores no Rio, que se sentem obrigados a ver a peça mais de uma vez, para aproveitar melhor cada cena. O espetáculo mistura mitologia grega, filosofia alemã e realidade brasileira, numa noite da vida de Nardja Zulpério.

Autor e atriz garantem que o espetáculo nada tem de autobiográfico, embora seja especial para Regina Casé. A peça recria o cotidiano de uma pessoa comum, mergulhada entre milhares de atividades e preocupações. Em alguns momentos, Nardja, quer dizer, Regina Casé, discute o texto com a platéia.

Para resumir a peça, pode-se dizer o seguinte: Nardja volta para casa, exausta, no final do dia, onde além dos problemas domésticos com o filho e a irmã, deve adaptar para o Teatro “Assim falou Zaratrusta”, de Nietzche, ao mesmo tempo em que prepara o roteiro de um show que será apresentado em Belo Horizonte, escreve a letra de uma música do ex-marido que está em Los Angeles e concorre ao papel de garota psiquê num video publicitário sobre roupas íntimas das marcas Eros e Psiquê.

O Autor: Hamilton Vaz Pereira se destacou como um dos mais inovadores e versáteis diretores teatrais ao participar da criação coletiva que deu origem, em 1974, ao grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. Contemporaneidade e humor são as suas marcas, como autor. Escreve obras repletas de informações para o público, exigindo sempre muita criatividade da produção. Nardja Zulpério é, com certeza, seu trabalho mais maduro e apurado.

Entre suas peças, podem ser citadas Amizade de rua, com a atriz Patrícia Pillar (86): Ataliba, a gata safira, com Débora Bloch (87): Notícias silenciosas, com Luiza Thomé (91). Foi vencedor, em 87, dos prêmios Mamembe, com Trate-me Leão ganhando o Golfinho de Ouro, no mesmo ano, pela direção desta. Em 91, foi indicado para o prêmio Shell de melhor autor com Nardja Zulpério.

A atriz Regina Casé começou também com o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. Está entre as mais jovens atrizes brasileiras a receber o prêmio Moliére. Ela tem uma capacidade, muito especial, de se comunicar com o público, ao mesmo tempo que encarna personagens com a mesma seriedade com que é capaz de rir – e fazer rir – deles.

Algumas das peças que já participou. O inspetor geral, Trate-me Leão, Aquela coisa toda, A farra da Terra, Doce deleite. No cinema, fez Tudo bem, A marvada carne, Os sete gatinhos eLuar sobre parador.