Um ano novo
Regina Casé
O Globo . 11/2008

Adoro ver o Zeca olhando o mundo.
Regina Casé
10/2008

Eu morava no Edifício Esmeralda...
Regina Casé


Calor na bacurinha
Regina Casé
Livro "Fogo nas entranhas" de Pedro Almodóvar

 
Eu morava no Edifício Esmeralda...
Regina Casé
Eu morava no Edifício Esmeralda, entre a Paula Freitas e a República do Peru, em Copacabana. Conhecia cada pedra portuguesa da Rua Tonelero entre a Paula Freitas e a Praça Cardeal Arco Verde, aquelas figueiras, aquelas bolinhas que você pisa e vai fazendo cré, cré, cré. Durante onze anos fui e voltei pelo menos duas vezes por dia por aquele trecho da rua. Eu ia à praia todos os dias, chovesse ou fizesse sol, entre a Paula Freitas e a República do Peru. A rua tinha ainda muitas casas, os prédios eram poucos. Tinha o prédio do Carlos Lacerda (aonde aconteceu aquele atentado onde morreu o Major Rubens Vaz, que por isso deu nome a rua onde depois fui morar na Gávea), que era ótimo para passear de bicicleta e de patins porque tinha uma ladeirinha na frente da portaria. Tinha mais uns dois prédios antiguinhos, e o resto era casa, casa e casa. Ao lado do Edifício Esmeralda havia uma casa onde aconteceu um crime horrível, o filho adotivo assassinou os pais. Ninguém queria comprar aquela casa, até que uns argentinos abriram um negócio que, na época, não existia por aqui, mas que hoje parece uma coisa de utilidade máxima, que é um pet shop. Eu tinha 14 anos e trabalhei lá um tempo. Dava banho em cachorro, secava com secador, pintava unha de cachorro, tudo.

Estudei no Colégio Sacre-Couer de Marie a vida inteira. Quando fui fazer meu teste vocacional, deu que eu ia ser química. Nunca tinha estudado química. Estudava num colégio de freiras em que a matemática não era o forte, nem o inglês. Tive foi aula de vagonite, aquele bordado tipo toalhinha de lavabo, tinha aula de latim, que era bom mas era uma coisa de outra época. Falando assim, parece que sou muito velha, mas tenho 49 anos. No começo eu odiava a escola, chorava… Todo ano minha mãe achava que eu tinha acostumado lá, mas quando acabavam as férias eu me agarrava até no pé da pia para não ir ao colégio. Mais tarde, no ginásio, eu gostava, achava engraçado, tenho lembranças boas das freiras, do lugar, que era maravilhoso, enorme, com mangueiras. Às vezes eu ficava em segunda época de propósito só para comer manga. Eu achava o colégio um lugar bom, as freiras eram legais, e eu tenho mesmo uma tendência para a religiosidade, então foi bom.

Eu convivi muito mais com minha avó, com minha tia, com gente velha, do que com meu pai e minha mãe. Eles trabalhavam muito, se separaram muito cedo.

Minha mãe fazia um programa de televisão que se chamava Boa tarde, depois um de teatro de bonecos chamado Quem quiser que conte outra. Minha mãe fazia teatro de bonecos. Ela sempre fez teatro de fantoche, de marionete, e eu cheguei a trabalhar com ela muito nisso antes do Asdrúbal. A gente fazia toda a rede municipal, arrumava um patrocinador tipo assim a Kibon, e íamos a todas as escolas públicas do município. ÉÊ por isso que eu conheço bem a Zona Norte, a Zona Oeste, trabalhei anos fazendo teatro de boneco em escolas.

O meu pai como todos os rapazes da época fez concurso para o Banco do Brasil e chegou a trabalhar lá até ir pra televisão.

O meu avô, Ademar Casé, foi um pioneiro. Ele era pau-de-arara, veio do Nordeste e vendia rádios, que dizer o rádio mesmo, o aparelho. Mas ele vendeu tantos rádios que comprou um horário na Phillips e passou a ter um programa dele na rádio. Naquela época, não existia nem estação de rádio nem programa de rádio. Ele era tão pioneiro que o programa dele nem era chamado ainda de programa. No comecinho dos anos 30, ainda não existiam estações de radio, a Phillips detinha todos os direitos sobre os aparelhos e sobre as ondas também. Eles faziam transmissões, de tantas em tantas horas, de música, de noticias da guerra etc. Meu avô então comprou um horário da Phillips e começou a fazer o Programa Casé, que acabou se tornando um programa enorme, começava de manhã e ia até a noite, ai já na Rádio Mayrink Veiga.

E meu avô, com um mínimo de estudo, nordestino de Bela Jardirn, não era nem de Caruaru, quando percebeu que ia pintar a televisão, mandou meu pai para os Estados Unidos estudar televisãa e comprar uma câmera. Quando começou a TV Tupi, com programas como Noite de gala, as atrações do meu avô tinham meu pai na direção.

A história da televisão se confunde com minha história. E por isso que, quando me perguntam por que deixei de
ser atriz de teatro, respondo que o teatro na minha vida tem muito menos tempo do que a televisão. E eu gosto muito de televisão. Aliás, acho que não existe essa questão de gostar ou não de televisão no Brasil, dizer que não se gosta de TV é como dizer que não se gosta de carro, de telefone. Gosto de carro bem menos que de televisão, e ando de carro todo dia. Não dá para não gostar. Para estar vivo e atuante no Brasil, não se tem que só trabalhar em televisão, porque, se você for médico, tem que pensar em televisão, se você for dentista, se você for químico, para qualquer coisa, você tem que pensar em televisão. Se você pensar no tamanho do Brasil, na população brasileira, você saca logo que, para que a literatura, a dança, as artes tenham um mínimo de existência, isso só vai ser possível através da televisão. O cinema, o teatro, a academia têm um preconceito gigantesco contra a televisão.

Minha família era toda de televisão, minha mãe fazia teatro de bonecas, ninguém tinha grana, mesmo. Minha família nunca teve carro, nem casa de campo em lugar nenhum, nunca fui à Disney, nunca tive Barbie. Não era uma pessoa pobre, minha casa tinha muito glamour e muita bossa nova, com Tom e Vinicius, pessoas incríveis dentro de casa. A casa era toda desenhada, desde pequenos a gente podia escrever e desenhar na parede.

Meus pais sairam de casa muito cedo, eram rebeldes. Minha mãe se casou com um cara que era comandante da TAP, muito sério, que tinha tolerância zero comigo, e foi morar em Portugal com ele quando eu tinha 15 anos. Meu pai já morava em São Paulo, desde que eu tinha uns 12, 13 anos. Já foi para la com outra mulher, com quem logo teve um filho. Em São Paulo, ele dirigiu a TV Bandeirantes, depois a TV Excelsior.

Eu fiquei com a tia Julinha, que foi um personagem importante para o Asdrúbal. Quase toda as reuniões e os figurinos do Asdrúbal eram feitos na casa da tia Julinha.

Nessa época eu já fazia curso de teatro, já conhecia o Hamilton, já tinha mil amigos.

Eu achava meio chato, como acho até hoje, esse negócio de ser artista, mas me sentia meio empurrada para o teatro porque não tinha alternativa. Ficava pensando como era horrível ficar o tempo todo ligada naquela coisa criativa e com aquelas pessoas achando que são diferentes das outras. Sempre achei meio cafona esse negócio de achar artista um cara incrível, do outro mundo, e ainda acho. Fui educada para ser inteligente, para ser intelectual, para ser artista.

Quando meu pai foi para São Paulo e minha mãe para Portugal, fiquei de repente completamente dona do meu nariz e ainda cuidando da tia Julinha, que tinha 78 anos, com uma graninha mínima que o irmão dela tinha deixado. Vendemos o apartamento dele, dividimos o dinheiro com a irmã dela e compramos outro em Ipanema, pequenininho, térreo, onde vivia todo mundo embolado. Tia Julinha tinha uma máquina de costura com a qual a gente fazia todas as roupas do Asdrúbal e foi nesse apartamento que, no começo, aconteceram todas as reuniões e ensaios do grupo.

O apartamento era na Rua Gomes Carneiro, bem onde começa Ipanema, onde era o Pier. As pessoas saiam da praia e já entravam pela janela lá em casa. Esse apartamento foi o começo do Asdrúbal. Ele era mínimo, de quarto e sala, mas como era térreo e tinha uma área de serviço maior, dava para a gente fazer tudo ali. Tinha uma mesa de totó, o Hamilton dormia lá, todo mundo ia, era um apartamento daqueles clássicos da época, cheio de almofadas. Tinha uma mesa amarela pintada com um coração onde as leituras e as reuniões de criação do Asdrúbal aconteciam. Tia Julinha era maravilhosa, a gente podia falar o que quisesse, fumar maconha, namorar.

Eu era bandeirante e minhas amigas de lá e minha turma da escola andavam com um grupo de meninos que eram do Santo Inácio. Esse grupo estava montando no colégio Esperando Godot e começou a ir a um curso teórico de teatro do absurdo. Eu queria era namorar e beijar na boca, não tinha nenhum interesse específico em teatro, ainda mais em teatro do absurdo. Entrei nesse curso só pra beijar um menino que eu tava afim. Mas lá conheci o Hamilton e este foi o encontro.

Quando acabou o curso teórico, o Sérgio Britto propôs começar também um curso prático. Entrei para o curso prático e automaticamente colei no Luiz Eduardo e no Hamilton. Comecei a gostar muito de teatro, mas o pessoal não achava que eu levaria aquilo a série, e de certa maneira eles tinham razão. É claro que acho teatro bacana, mas essa sacralização, a preparação, a voz, o palco sendo um templo e o camarim uma sacristia nunca bateram em mim.

Isso me atrapalhou durante muitos anos. Sempre gostei de ir à praia, acordo às 6 horas da manhã, sou diurna. Odeio barzinho, não bebo. Então eu olhava aquela gente branca, com olheiras, num bar, e tinha zero de identificação com aquilo. Naquela idade não queria uma profissâo, queria uma turma, um namorado. Era como usar aparelho nos dentes. Todo adolescente faz teatro, toca violão, usa aparelho. Mas ninguém vai tocar violão a vida inteira, usar aparelho a vida inteira, nem fazer teatro a vida inteira.

Então eu achava que era isso, que uma hora iria tirar fora o teatro como se tira o aparelho, mas o teatro foi ficando. O Sérgio Britto, a Glorinha Beutenmüller, carinhosíssimos, mestres a quem sou gratíssima até hoje, achavam que eu iria tirar o aparelho já já, que aquilo não ia render. Só o Klauss e a Angel eram diferentes. Principalmente o Klauss, me levava a seríssimo. Ele me mandava fazer um exercício, eu fazia e quando eu acabava ele me abraçava, parecia que eu tinha acabado um espetáculo. Ele entendia tudo que eu fazia e eu já fazia tudo totalmente desmontado, muito parecido com o que faço hoje. Eu improvisava sempre sobre o que eu tinha acabado de viver, o ônibus, uma situação qualquer. Ele adorava como eu me mexia, como me expressava, minha maneira de falar, e acabou me convencendo de que eu era boa atriz, que devia investir naquilo. E que aquilo que eu fazia também era teatro ou poderia vir a ser teatro, mesmo que não necessariamente fosse igual ao do Sérgio. O Klauss foi sempre imprescindivel para mim.

Mas mesmo assim o curso do Sér'gio foi ótimo para mim. Aprendi tudo e, depois que virei atriz mesmo, a Glorinha me pegou no colo e cuida de mim até hoje! Neste curso conheci o Hamilton, a Nina, o Perfeito, João Carlos Motta, Jorge Alberto Soares. Foi esse curso que me levou ao Asdrúbal.
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