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Ai que calor, mamãe
na bacurinha, mamãe
não é na sua, mamãe
mas é na minha...
O que mais gosto nas piadas em geral é o começo. Elas quase sempre partem de uma idéia absurda. Tipo essa que eu sempre peço para um amigo me contar de novo: – "Um homem perdeu sua aliança de casamento dando uma "dedada" numa mulher. Nervoso, ele entra na buceta dela pra procurar. Lá dentro ele vê um piano de cauda..."
E por aí vai. Nem lembro como é que essa piada acaba. O final, pouco importa. Só sei que eu morro de rir. Porque é tão alegre a liberdade de partir desse princípio e imaginar tudo isso e achar que tudo acaba bem.
Quase todos os filmes de Pedro Almodóvar são assim: acontecem logo de cara coisas incríveis e escabrosas. Com muita naturalidade e sem nenhum julgamento moral. Mas no fim os personagens que atuaram na trama fecham o filme fazendo um café ou conversando amenidades.
Como nos filmes, a marca Almodóvar se repete em Fogo nas Entranhas. As personagens terminam a novela dormindo um soninho gostoso. Há momentos muito engraçados. Mas o que diverte mesmo é como eles são narrados. O autor é capaz de passar parágrafos e parágrafos descrevendo a personalidade de alguém que tem pouca ou nenhuma importância na história.
Há cenas no livro que dá vontade de ver no cinema. Ou melhor ainda, na vida real. Nem o autor resiste e até comenta a beleza dessa imagem: "... As moças com calor na bacurinha saem pela cidade e vêem um gari com um mangueirão ("...") lavando a calçada. Levantam as saias e gozam no meio da rua com o jato d'água."
Já pensou que delícia?! Nada do escurinho do bidê francês ou do luxo americano das banheiras de hidromassagem.
Um desejo claro – nada obscuro.
Mas atenção: mesmo pra quem acha essas coisas menores ou até mesmo vulgares, vai ser impossível não se render a candura das coisas verdadeiramente amorais.
Pra você que já gosta de coisas tipo o programa da Monique Evans, da Trilogia da Vida do Pasolini, da Cicciolina, do Fausto Fawcett, do Carlos Zéfiro, do Fórum, da revista Ele e Ela, vai ser moleza gostar do livro
E quando você descobre, como eu, que o cara que escreveu em 1981 essa novelinha safada, anos antes só fazia fotonovelas e filmes pornôs, é hoje um dos maiores diretores de cinema da Espanha e também do mundo, dá pra dar uma liberada, né? Te libera pra gostar do programa da Monique Evans na Tv.
Te libera pra bater uma punhetinha entre um capítulo e outro, ou até sair por aí e procurar alguém pra dar uma trepadinha e depois comentar Fogo nas Entranhas com direito a dar boas risadas. O fato do diretor desses filmes, onde tanta gente vê poesia, transcendência e sentido de liberdade, ter vindo do cinema pornô, te libera até pra adorar esse livrinho safado.
É um livro alegre, vulgar excitante que dá vontade de rir e de dar
P.S. Se você quiser saber o final da anedota do piano, procure um cara chamado Beto Bruno para ele te contar. Eu não lembro como é que acaba...
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