Um ano novo
Regina Casé
O Globo . 11/2008

Adoro ver o Zeca olhando o mundo.
Regina Casé
10/2008

Eu morava no Edifício Esmeralda...
Regina Casé


Calor na bacurinha
Regina Casé
Livro "Fogo nas entranhas" de Pedro Almodóvar

 
Calor na bacurinha
Regina Casé
Livro "Fogo nas entranhas" de Pedro Almodóvar
Ai que calor, mamãe
na bacurinha, mamãe
não é na sua, mamãe
mas é na minha...


O que mais gosto nas piadas em geral é o começo. Elas quase sempre partem de uma idéia absurda. Tipo essa que eu sempre peço para um amigo me contar de novo: – "Um homem perdeu sua aliança de casamento dando uma "dedada" numa mulher. Nervoso, ele entra na buceta dela pra procurar. Lá dentro ele vê um piano de cauda..."

E por aí vai. Nem lembro como é que essa piada acaba. O final, pouco importa. Só sei que eu morro de rir. Porque é tão alegre a liberdade de partir desse princípio e imaginar tudo isso e achar que tudo acaba bem.

Quase todos os filmes de Pedro Almodóvar são assim: acontecem logo de cara coisas incríveis e escabrosas. Com muita naturalidade e sem nenhum julgamento moral. Mas no fim os personagens que atuaram na trama fecham o filme fazendo um café ou conversando amenidades.

Como nos filmes, a marca Almodóvar se repete em Fogo nas Entranhas. As personagens terminam a novela dormindo um soninho gostoso. Há momentos muito engraçados. Mas o que diverte mesmo é como eles são narrados. O autor é capaz de passar parágrafos e parágrafos descrevendo a personalidade de alguém que tem pouca ou nenhuma importância na história.

Há cenas no livro que dá vontade de ver no cinema. Ou melhor ainda, na vida real. Nem o autor resiste e até comenta a beleza dessa imagem: "... As moças com calor na bacurinha saem pela cidade e vêem um gari com um mangueirão ("...") lavando a calçada. Levantam as saias e gozam no meio da rua com o jato d'água."

Já pensou que delícia?! Nada do escurinho do bidê francês ou do luxo americano das banheiras de hidromassagem.

Um desejo claro – nada obscuro.

Mas atenção: mesmo pra quem acha essas coisas menores ou até mesmo vulgares, vai ser impossível não se render a candura das coisas verdadeiramente amorais.

Pra você que já gosta de coisas tipo o programa da Monique Evans, da Trilogia da Vida do Pasolini, da Cicciolina, do Fausto Fawcett, do Carlos Zéfiro, do Fórum, da revista Ele e Ela, vai ser moleza gostar do livro

E quando você descobre, como eu, que o cara que escreveu em 1981 essa novelinha safada, anos antes só fazia fotonovelas e filmes pornôs, é hoje um dos maiores diretores de cinema da Espanha e também do mundo, dá pra dar uma liberada, né? Te libera pra gostar do programa da Monique Evans na Tv.

Te libera pra bater uma punhetinha entre um capítulo e outro, ou até sair por aí e procurar alguém pra dar uma trepadinha e depois comentar Fogo nas Entranhas com direito a dar boas risadas. O fato do diretor desses filmes, onde tanta gente vê poesia, transcendência e sentido de liberdade, ter vindo do cinema pornô, te libera até pra adorar esse livrinho safado.

É um livro alegre, vulgar excitante que dá vontade de rir e de dar

P.S. Se você quiser saber o final da anedota do piano, procure um cara chamado Beto Bruno para ele te contar. Eu não lembro como é que acaba...
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